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ESPORTE E POLÍTICA SE MISTURAM? SIM!

Particularmente, sou um pouco suspeito para dar uma opinião dessas, uma vez que essas são as minhas duas áreas preferidas na totalidade do Jornalismo. Em 2018, Tiago Leifert revelou acreditar que esporte e política não devem se misturar. No mesmo ano, Juca Kfouri deu entrevista discordando veementemente e ainda citou exemplos de esportistas usando grandes espaços, como Copa do Mundo e Olimpíadas, para expressar suas opiniões. Eu acredito que é muitíssimo abstruso tentar entender um jornalista que ataca a liberdade de expressão de qualquer cidadão, seja ele um esportista famoso ou não.

A FIFA e o COI concordam com Leifert e até tentam filtrar essa questão, uma vez que manifestações políticas são proibidas nas suas competições oficiais. Mas aqui no Brasil, por exemplo, faixas de repúdio a presidentes são realidade desde o Regime Militar. Fora daqui, a política já tirou EUA e URSS de edições das Olimpíadas, as duas Coreias levaram uma delegação conjunta às Olimpíadas de Inverno, em 2018, edição na qual também o patinador artístico Adam Rippon recusou participar de um encontro dos atletas norte-americanos com Mike Pence, vice-presidente do país e chefe da delegação dos Estados Unidos nos jogos, político muito criticado pelo atleta. Houve o caso do técnico da Croácia, Zlatko Dalic, que criticou a presidente Kolinda Grabar-Kitavoric, a qual foi, acompanhada de Vladimir Putin, presidente russo e anfitrião, ao vestiário da seleção após o vice-campeonato mundial de 2018. Em um post nas suas redes sociais, Dalic pediu "aos políticos e a todos os representantes das autoridades que levaram o nosso povo ao inferno da miséria, ao desespero e à pobreza, que se afastem da equipe de futebol da Croácia".

Alexandre Kalil (E), ex-presidente do Atlético-MG, e João Leite (D), goleiro do Galo mineiro nas décadas de 70 e 80, disputaram a prefeitura de Belo Horizonte em 2016, vencida pelo cartola. Foto: Reprodução/TV Globo Minas.

A questão é que por mais esforço possível feito para separar um do outro, não há como. Pessoas do mundo esportivo são influenciadoras, dentro ou fora do seu âmbito. Predominam principalmente no futebol, mas os exemplos de pessoas exercendo algum cargo político com a influência do esporte são inúmeros: há os ex-jogadores Romário (senador - Podemos-RJ), Danrlei (deputado federal - PSD-RS), Bebeto (deputado estadual - Podemos-RJ), o falecido Tarciso Flecha Negra (ex-vereador em Porto Alegre - PSD-RS); dirigentes como Alexandre Kalil, ex-presidente do Atlético-MG (Prefeito de Belo Horizonte - PSD-MG); o jornalista esportivo Jorge Kajuru (senador - Cidadania-GO), o também jornalista esportivo Farid Germano Filho (vereador suplente de Porto Alegre - DEM-RS) e até integrante de torcida organizada, como Gaúcho da Geral (deputado estadual - PSD-RS). Fora do futebol tem Leila do Vôlei (senadora - PSB-DF), o ex-nadador Luiz Lima (deputado federal - PSL-RJ), o ex-judoca João Derly (secretário estadual do Esporte e Lazer - Republicanos-RS).

Muitos outros já passaram pela política, como os ídolos Zico e Pelé, que foram Ministros do Esporte nas gestões de Collor e FHC, suscetivamente, e ambos criaram leis com os seus nomes, os ex-boxeadores Reginaldo Holyfield (ex-gestor de projetos da subchefia do gabinete da Prefeitura de Salvador - DEM-BA), Popó (ex-deputado federal - Republicanos/BA) e o falecido Éder Jofre (ex-vereador de São Paulo - PSDB-SP), o também falecido e ex-saltador João do Pulo (deputado estadual - PFL-SP), o ex-velejador e secretário nacional de Esportes no governo FHC, Lars Grael, o atual presidente do Corinthians, Andres Sanchez (ex-deputado federal - PT-SP), por exemplo. Também podemos lembrar do ex-treinador de vôlei Bernardinho (Novo-RJ) e do ex-presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello (Rede-RJ), que almejam candidaturas num futuro próximo. E não é só no Brasil, há PRESIDENTES DA REPÚBLICA oriundos do esporte pelo mundo, como o vizinho Mauricio Macri, ex-presidente da Argentina e do Boca Juniors, e George Weah, único africano eleito melhor jogador de futebol do mundo e atual presidente da Libéria.

Figura conhecida de torcida organizada do Grêmio, Juliano Franczak, o Gaúcho da Geral, foi eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul em 2018. Foto: Divulgação/Jossoel Soares.

Enfim, um é importante para o outro. A política implica diretamente no futebol. Inclusive, parte dos grandes do futebol brasileiro estão de portas abertas ainda em função da política e do apoio e regalias que o sistema oferece a eles e suas dívidas. Personalidades esportivas buscam o setor público, mas também são procurados pelos políticos, para aumentar credibilidade de gestões ou para pastas mais técnicas, como a do Esporte. Outro exemplo do esporte na política são os projetos em comunidades mais carentes. Geralmente são inseridos através da prática esportiva. Entretanto, também há muitos políticos inseridos diretamente em clubes e federações por todo o país, inclusive na CBF.


Catalães reivindicam separação da Espanha. Foto: Divulgação/FCF.















Sempre que vem esse tema, eu lembro de uma matéria da Jovem Pan, na qual Valdir Pucci, cientista político e professor da Universidade de Brasília, disse, em alusão ao apoio declarado de atletas ao, na época, presidenciável Jair Bolsonaro, que os jogadores podem influenciar, pois “são personalidades que uma parcela da sociedade leva em consideração. A gente tem que pensar com a cabeça do marketing, que contrata jogadores para promover marcas. Isso se reproduz na política. O atleta famoso, que joga em grandes times, também pode influenciar na eleição”. E eu concordo plenamente. E acrescento ainda que implica no próprio atleta a exposição do pensamento político, uma vez que pode tanto ganhar mais admiradores fiéis como perdê-los, independentemente do seu desempenho.

Uma prova disso é o zagueiro do Barcelona e ex-seleção espanhola Piqué, que é a favor da independência da Catalunha e é altamente criticado no seu país, mesmo que tenha mantido o alto nível na seleção nacional durante anos. Hoje, ele defende a Catalunha, mesmo a seleção não sendo reconhecida pela FIFA. Tanto para o que concordamos ou não, o esporte vai seguir sendo utilizado para os atletas e a própria torcida se manifestarem. E que bom, que continue. Nós devemos apoiar e lutar a favor da liberdade de expressão, assim como se luta pela inclusão das minorias no esporte. Esporte e política caminham juntos.

R.F.

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