É muito comum, principalmente nos últimos anos, jogadores defenderem países nos quais não nasceram. Grandes seleções contam com "estrangeiros" no seu elenco, como a Espanha (Huijsen, zagueiro holandês), França (Olise, atacante inglês), Inglaterra (Guéhi, zagueiro marfinense) e Argentina (Simeone, atacante italiano). Até o Brasil, recentemente, teve Andreas Pereira, nascido na Bélgica. Na última Copa do Mundo, a seleção de Marrocos foi assunto pelo vasto número de atletas nascidos na Europa.
Porém, a federação dos Emirados Árabes Unidos foi um pouco longe. No último dia 21 de julho, a lista de convocação do técnico romeno Cosmin Olaroiu contou com 29 nomes para atividades na Áustria, entre o fim de julho e começo de agosto. Desses, 20 não nasceram no país. Diferente dos casos citados acima, a imensa maioria não possuía ligação alguma com o país até alguns anos atrás. Isso é fruto de um projeto iniciado em 2019.
Comandante do Sharjah, Cosmin Olaroiu foi escolhido para a reta final das Eliminatórias. Foto: Sharjah/Divulgação.
A liga local contou com uma mudança na regra dos estrangeiros, implantada para a temporada 2019/20. A iniciativa, que resultou em permitir a contratação de atletas sub-21, somando aos que já eram permitidos, atraiu dezenas de jovens brasileiros, argentinos, africanos e do mundo todo, além de também servir de incentivo para alguns atletas um pouco mais experientes que não possuíam experiências nas suas seleções nativas. O objetivo era claro: fortalecer a seleção, que via os vizinhos de Oriente Médio Catar e Arábia Saudita destoarem.
A última competição antes do projeto foi a Copa da Ásia de 2019, sediada em terras emiradenses e que teve a seleção chegando nas semifinais, ainda sem a presença de nenhum jogador de fora do país no elenco. A competição foi vencida pelo Catar, que eliminou o país-sede com um sonoro 4x0 para chegar na final. Mesmo que a seleção fosse 100% nativa, as equipes já tinham alguns estrangeiros, mas em número bem menor do que atualmente e sem a preocupação no fomento do futuro da seleção.
Depois do craque Omar Abdulrahman, meia nascido na Arábia Saudita, só em 2019 a seleção teve outro estrangeiro: o também meia Ramadan, natural do Egito. Os estrangeiros não-árabes começaram a chegaram em 2020. Sebastián Tagliabué, atacante argentino, na época com 35 anos, foi convocado por cerca de dois anos. Porém, nos pés dos talentos vindos do Brasil que estavam os primeiros craques da nova era dos Emirados Árabes Unidos: a dupla brasileira composta pelo meia Fábio Lima e o atacante Caio Canedo virou presença frequente nas listas e logo caiu nas graças da torcida.
Fábio, Caio e Ramadan disputaram a Copa da Ásia em janeiro de 2024, sediada e também vencida pelo Catar, e seguem firme na seleção até hoje. Em setembro do mesmo ano, o primeiro "reforço" do projeto de 2019 apareceu: o zagueiro marfinense Kouame Autonne, peça-chave da defesa do Al Ain campeão asiático, foi chamado após completar cinco anos de residência nos Emirados Árabes, conforme as regras da FIFA para naturalização.
| Identificado com o Al Ain, Autonne é um dos pilares do projeto emiradense e o primeiro dos jovens a chegar na seleção. Foto: Chris Whiteoak/The National. |